Dom Will

Ars Gratia Artis

Mês: dezembro 2013

Náufrago

Deixe que me explique, menina:
todo poeta é um náufrago
e cada seu poema uma ilha azul

Quando já não temos comida, menina,
garramos num destes poemas
e ficamos lá, por um tempo.

Nalguns passei anos,
noutros só três minutinhos…

O tempo não passa nos poemas, menina.
Nos poemas o tempo é quando…

É isso, criança, é isso que te queria dizer:
Sou um náufrago, menina!
E você!?
Você é a ilha onde passei todo o meu futuro.

=Dom, #467
Poesias de Busão, por Caroline Almeida e além…

Eu, circo teu

No picadeiro surge “eu”,
teu palhaço lisonjeiro.

Fazes de mim faxineiro,
limpando a sórdida sujeira.

Se fosses platéia,
Em mim lerias arte.
Não és platéia, és morte.
Carrasco de minha alegria.

(…)

Antes me fizésseis drama.
Ao menos serias coerente.

=Dom

Minha sentença

Calabouços
Claustrofóbicos,
Teus olhos

Masmorras
Onde das horas
Me perco

Círculos negros
Vagando no espaço,
No tempo
De quem não fui

Calabouços
De minha sorte,
Teus olhos,
Minha sentença.

=Dom

“Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e
poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu.
Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da
dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos
de ressaca? Vá, de ressaca.”
Assis, Machado de. Dom Casmurro

Nua em Gala

Queria mesmo
era desenhar-te
nua em um poema
vestido em gala…

=Dom

In corpore

Leito, o deleite
de ser poesia em corpo.

Corpo, o espasmo
em ser verso sentido.

Sentido, o cheiro
do pêlo que é roupa.

Vestido, a pele
que é rosa e ferrão.

Tu, morena,
és verso escrito
sem papel ou caneta.

E eu escritor
sem verbos, adjetivos
ou conjunções…

=Dom

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