Alfredo Casimiro me contava que o mundo era como um número de mágicas. Dizia que havia os ilusionistas e havia a platéia e que – como numa dança – as vezes os papéis eram permutados:

– Hora a platéia assume o palco, meu bom amigo, hora é o palco que assume a platéia…

Como eu não conseguisse compreender a extensão de seu pensamento, Alfredo me narrou um causo para ilustrar:

– Há tempos morei pelo Sul e lá ocorreu uma passagem que me explica bem o pensamento: pois veja que havia uma tal Fulana que não se casou de branco. Era a própria encarnação da pureza, a bendita, mas o branco não lhe descia bem. Escolhera casar de vermelho. Taxaram-na: “vulgar”, “messalina”, “prostituta”. Por fim as maledicências acabaram por lhe expulsar do convívio social – uma indignidade!

– Sicrana, outra paroquiana do mesmo bispado, casou-se de branco. Era moça tão “gentil” que “alegrara a cama” de meio mundo de rapazes… Mas como lhe vestia bem o branco! Parecia um anjo de candura!
Como lembrasse a santa, a convidaram para dirigir o grupo de noivas da igreja.

– Vá entender, meu amigo, como fosse obra de prestidigitadores tudo o que ambas foram na vida desapareceu aos olhos da platéia. O “respeitável público” se atentou somente a cor dos vestidos de casamento. Foi com base nas cores que construíram o julgamento, a sentença e sua execução…

(…)

Ouvi Alfredo com atenção e tive de dar razão a suas idéias. O mundo é mesmo um espetáculo de mágicas. E preciso acrescentar: um espetáculo com uma enorme, desatenta, e precipitada platéia…

=Dom

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Micro conto de “sala-de-espera”