Dom Will

Ars Gratia Artis

Tag: solidão

Cirandou

Se o anel não fosse de vidro
Se o amor não fosse tão pouco
Quem sabe essa ciranda
Não precisasse cirandar

Mas não é minha essa rua
Mas nem é grande esse amor
Quem sabe essa ciranda
Não precisasse cirandar

Mas ciranda!
O anel se quebra,
O amor se acaba
E a rua continua não sendo minha

 

=Dom

Casa enlutada

insonia

A casa se fez silente
tão logo teu canto cessou

Em respeito à tua lembrança
trajaram-se de negro a mesinha,
o sofá e a estante dos livros

Em respeito à tua lembrança
não declamei poesia nem desejei existir,
vesti-me de preto à combinar com o resto da mobília

Em respeito à tua lembrança
afoguei na piscina o gato
e fiz um tapete do cão Labrador

Fiz um buraco no canto da sala;
Enterrei os restos do frango do almoço;
Quis ser os restos do frango do almoço;
Quis ser o buraco no canto da sala;

Quis ser o gato rijo afogado;
Quis ser o cão feito em tapete;
Quis ser a casa de negro vestida;
Quis ser a morte da tua canção…

Em respeito à tua lembrança
ficamos sós, eu, a triste casa enlutada
e tua incomparável ausência.

=Dom

Poema às avessas

Controverso, o escritor, contra o verso escrevia

– Poucos entendem o que dizes, gritavam…
– Poucos compreendem a arte, se ria…

E assim, contra o fluxo letárgico dos homens,
contra a barbárie da incoerência,
tecia no tear de Láquesis o destino que o consumia.

– Poucos querem tua arte, gritavam…
– Poucos podem ter arte, se ria…

Contra o verso, o escritor, controverso vivia
e no tear de Átropos seu destino escorria.

– Poucos lêem teus textos, gritavam…
– Nunca escrevi para todos, se ria…

=Dom

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Um estudo cômico dedicado aos contemporâneos
colegas de arte e sua imensa anti-platéia.

 

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